A popularesca televisão regional

A situação é quase a mesma em vários Estados brasileiros. As afiliadas das grandes redes de televisão normalmente têm, na sua programação, programas popularescos que invocam a bestialidade e a “ignorância” do povo. Não é apenas no Ceará que este cenário acontece. Aqui no Estado, três programas se destacam nesta imbecilidade televisiva: o programa Barra Pesada (TV Jangadeiro), Rota 22 (TV Diário) e Cidade 190 (TV Cidade).

Por trás de uma justificativa fajuta, os apresentadores destes telejornais alegam que estão prestando grande serviço a população, estão dando voz ao povo que tanto é esmagado pela classe mais alta da sociedade, e que apenas estes programas são a solução para tal descaso. Vejamos: as pessoas são mostradas através de uma horrorosa película de ignorância, e até mesmo incitadas a tal pelos “repórteres” e apresentadores. A imagem da “vida como ela é” nunca foi tão deturpada como nos últimos tempos. Será mesmo essa a melhor maneira de mostrar o que o povo tem de melhor?

No Ceará, os tais programas citados anteriormente mostram pessoas deitadas no chão de asfalto, calçadas, casas, e outros lugares, espirrando sangue à vontade. A câmera capta a imagem de forma integral, mas tenta maquiá-la, colocando um efeito ridículo, embassando a imagem. Como se fôssemos obrigados a ver aquilo, mas como a cena é horripilante, a distorção da imagem ajudaria a amenizar o problema. Inocente engano. Há também as tristes e imbecis entrevistas que o ditos repórteres fazem às pessoas que acabam de perder um ente querido, seja por assassinato ou motivo de doença. É freqüente a pergunta “Como a senhora está se sentindo?” às mulheres ao lado dos caixões de seus maridos, filhos, parentes, quando do velório em suas próprias casas.

Nas reportagens, os cinegrafistas despreparados filmam de modo amador. A câmera treme, desfoca, numa tentativa desesperada de ajustar o ângulo. A filmagem é feita de qualquer jeito, sem nenhum preparo ou estudo. O produto final é constrangedor. Mostra uma despreocupação da emissora de TV em dar qualidade à sociedade. Talvez o conceito de “qualidade” seja bastante diferente do que está escrito no dicionário. É só lembrar da grande propaganda que a RedeTV! fez quando foi inaugurada em agosto de 1999. Ela sempre dizia que iria ser o padrão de qualidade brasileiro, ser uma TV diferente, que não ia na onda das outras emissoras de televisão. Porém, nove anos se passaram, e o que vamos é a decadência de uma rede de televisão que tinha tudo para ser uma das melhores do país. Programação pobre, programas porcamente produzidos e com conteúdo imbecil. A RedeTV! nada mais fez que copiar e seguir uma lógica midiática brasileira: se está bom assim e o povo está gostando, para que mudar?

Talvez seja este o pensamento dos programas de TV policialescos das emissoras do Nordeste. Não há preocupação com a qualidade, e sim com a quantidade de besteirol imbecil que faz com que a audiência aumente. Enquanto isso, a população continua assistindo a esses programas, achando que é muito correto e que os crimes que lá são exibidos devem fazer parte do almoço de cada dia. Parece ser uma tendência nacional. Em cada Estado da Federação há uma ou duas emissoras locais que têm este tipo de programação.

Será mesmo correto esta maneira de fazer jornalismo cidadão? É realmente necessário este tipo de abordagem? Porque não unir qualidade de apuração jornalística com a competência de fazer uma grande reportagem de televisão? O caminho mais fácil geralmente é o que tem menos qualidade possível. Ou seja: pegar um microfone e uma câmera e improvisar porcamente uma entrevista com um bandido, sem apuração alguma e apenas com as pobres informações da polícia, é bastante fácil. Não exige leitura alguma, não exige apuração competente nenhuma. Exige apenas a extinção do senso de ridículo e a fajuta coragem de entrevistar um bandido numa delegacia, tornando-os praticamente estrelas por alguns minutos. Em alguns desses programas, bons jornalistas fazem parte da equipe. É incompreensível o porque desses profissionais estarem trabalhando neste recinto tão pobre e inútil da televisão cearense.

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