Hoje na Universidade, por coincidência, o apresentador de um programa policialesco foi ministrar um debate acerca do jornalismo policial no Ceará e também dando uma visão geral do Brasil. Lembrei instantaneamente do texto que escrevi aqui, há algumas semanas, a respeito desse polêmico tema. Quando mostrei o texto para um colega, ele de prontidão disse que estava muito agressivo e que usei palavras fortes. Mas eu acho que esta foi exatamente a minha intenção. Causar impacto. As pessoas têm que perceber que esse tipo de jornalismo é totalmente inválido para a sociedade. Pra quê? Dar audiência? Isso é complicado. Vale a pena se deitar na hipótese de que "estamos apenas mostrando a realidade", mas não é essa a realidade criada pelos próprios programas?
Vou explicar: dia desses estava lendo sobre o papel da imprensa diante de acontecimentos trágicos. O mais clássico deles é o de suicídio. Quando alguém comete suicídio, a imprensa tem que noticiar? Porque não? Qual o critério utilizado? Reza a lenda que quando um fato desse é noticiado, automaticamente ele pode ser "repetido, imitado". Pessoas podem se matar em massa. Lembrei-me agora da entrevista que fiz com Cid Carvalho. Como a pergunta foi minha, tenho a liberdade de colocar aqui:
Thiago Jorge: Sobre a cobertura jornalística dos grandes acontecimentos de hoje, principalmente da menina que foi jogada do 6º andar de um prédio em São Paulo, o senhor acha que há muita incompetência, muito sensacionalismo?
Cid Carvalho: Eu acho muito errado. Ainda há pouco eu critiquei aqui no meu programa. Ninguém divulga um caso como aquele com minudências, com detalhes. Porque imediatamente eles são imitados. A violência contra a criança por conta desta cobertura vai crescer muito no Brasil. Vão lançar outras crianças de janelas de edifícios. Ainda ontem três marginais, aqui em Fortaleza, atiraram numa criança de 9 meses. Houve aquele estupro na cidade de Jardim, que é pior que que o caso da Isabella. Estupraram da maneira mais estúpida, o estupro já é uma estupidez, mas uma estupidez dentro da estupidez. Aquilo tudo não teria acontecido sem a morte da Isabella. O José de Alencar, nosso grande escritor, que também foi ministro da Justiça em 1865 no Império de Dom Pedro II, fez uma portaria proibindo noticiar suicídio, porque o suicidio é altamente contagiante. Na época do Collor, muita gente se suicidou em cadeia e não se noticiou tudo. Ninguém deve narra crime como fazem hoje. Jack O Estripador, em Londres, teve imitação em várias capitais do mundo. Pessoas que matavam prostitutas da maneira pior possível. Então esse noticiário da Isabella é errado dentro da técnica jornalística, é errado de acordo como que resta da lei de imprensa, é errado sobre o ponto de vista ético, ponto de vista moral. Isso compromete notadamente as redes de televisão. Isso é sinal de incompetência. Disputa-se a audiência contra a condição humana.
Diante desta resposta do Cid, já se pode ter uma idéia do que eu esteja dizendo. Como ele mesmo falou "um caso como esse não pode ser revelado com minudências". Senão ele pode ser imitado, plagiado, pessoas mal intencionadas vão adorar saber como a menina foi morta e poderão planejar mais mortes Brasil adentro. O mesmo com o suicídio. Quando ele é noticiado, ele pode ser imitado. Mas a minha intenção em falar disto tudo não é refletir sobre o suicídio em si, mas a exibição maciça de violência. Esse tipo de exibição não cria mais violência ainda? Não é de se estranhar que todos os dias se tem os mesmos crimes, assaltos, seqüestros nessa cidade?
Uma das minhas perguntas ao apresentador do programa Rota 22, Marcos Lima, foi se os programas policialescos é uma tendência das TVs do norte/nordeste. Mencionei que há uma TV da Bahia que também tem esse mesmo tipo de programa, e também uma emissora do Acre que exibe reportagens policiais e investigativas, na mesma linha do Rota. A resposta do convidado foi categórica: há uma tendência sim de imitar os programas policiais do Sudeste do Brasil, pois estes dão audiência. E enquanto eles derem audiência, estarão na grade de programação. É compreensível e ao mesmo tempo triste saber disso. Compreensível pois a TV Diário é uma emissora comercial e precisa que pessoas assistam a sua programação em massa para que haja retorno financeiro e a Tv possa viver. Triste pois temos que viver com essa realidade horrível em detrimento da qualidade dos programas. Se o programa tem sucesso, é porque o povo assiste. E talvez as mesmas pessoas que assistem reclamam do modo que são abordadas as "reportagens". Sou apenas um estudante de jornalismo e não eu unicamente não posso "mudar o mundo". Se somos os futuros jornalistas, formadores de opinião da nova era, como vão ser essas emissoras daqui a 20 anos? Sinceramente, acho que está na hora de fazer alguma coisa.
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