A figura.

Ela pegava aquele trem exatamente às 7 da manhã. E não sabia porque. Ela sabia que o trem passava todos os dias às 7 da manhã, mas quando chegava na estação, olhava para o relógio, e eram sempre 7 da manhã. Sempre. O mesmo senhor de calças escuras e cabelos brancos segurava a mesma pasta preta brilhante e estava sempre encostado no muro a direta da bilheteria. Maria da Glória fechou os olhos. Respirou fundo. Quando o pai dela morreu há poucos anos, deixou um legado de pensamentos muito tristes, mas ao mesmo tempo reconfortantes. Pensava toda hora em como a vida iria ser e se as coisas que ela faria seriam ou não aprovadas por ele; que já não estava mais vivo. Restou a mãe. Mas, na verdade, apenas a opinião do pai importava... já que era a última.  Maria fez várias coisas depois da ida dele para o mundo desconhecido. Pensava se, se ele estivesse vivo, iria aprovar o fato de ter atravessado  o país com uma mala nas costas, de ter tido idéias tão grotescas, de ter já tentado abandonar a faculdade e de ter se envolvido com gente tão falsa e tão mesquinha. Foi como um divisor de águas: ele morreu, e tudo embaralhou-se, nada mais está em ordem. O vínculo familiar foi quebrado, a magia foi enfraquecendo.  O pai. A figura. O ser. O homem. Se foi. Longe. Não alcança. Ele. O apito era forte, o trem vinha vindo. Maria da Glória abre os olhos, o ar estava frio, as pessoas andavam depressa. E o trem a esperava.

Comentários